sexta-feira 28 de julho de 2017

Castigo não ensina

Categoria(s):

Quem nunca colocou o filho de castigo que atire a primeira pedra! Opa, eu também me incluo nessa lista. Mas de um tempo para cá comecei a pesquisar sobre o assunto, conversar com educadores, ler alguns livros. E entendi o que eu já imaginava: castigo não ensina. E então, o que fazer quando seu filho faz aquela cena de malcriação bem no meio da loja de brinquedos? Não é para punir? Bem, pra começo de conversa, entenda a diferença entre castigo e consequência. E entenda a chance que você pode perder de ajudar seu filho no desenvolvimento dele a cada momento de birra.

Pois é, o castigo por si só, aquele em que se coloca a criança sentada no banquinho, sozinha, sem dar a ela a chance de falar de seus sentimentos e sem ao menos explicar o que ela fez de errado, isso não ensina nada. Ah, você explica o que ela faz de errado e mesmo assim ela precisa ficar lá pensando? Estamos falando de uma criança de menos de três anos? Deu no mesmo. Você só está dizendo que ela não pode fazer coisa errada porque isso a deixará de castigo. Vai ser medo pelo castigo, e não conscientização pelo que fez de errado. É isso mesmo que você quer ensinar?

Todos os pais sabem exatamente o que querem quando castigam o filho: a ideia é deixa-lo sem algo que ele gosta (um brinquedo, o joguinho eletrônico, por exemplo) com a intenção de que, ao sentir falta, ele vá entender o que aconteceu e não repetirá a ação errada. Isso funciona? Em tese, sim. A criança certamente não errará outra vez. Mas só naquele momento. Não há nada que a impeça de repetir a travessura depois. E aí, isso pareceu familiar para você? Já colocou de castigo e percebeu que no dia seguinte ela erra novamente e o castigo não adiantou de nada? Começa a perceber que o castigo serviu mais para você, que teve tranquilidade na cena da loja do shopping do que para seu filho realmente aprender porque não pode fazer birra por um brinquedo novo?

Muitos educadores acreditam que o castigo não traz nenhum benefício no futuro. A punição só refreia o comportamento. Não vai além disso. Não educa. Eles defendem que os pais precisam respeitar a criança. E para ensiná-la, não é necessário castigar.  Ao invés disso, você trabalha a consequência. Por exemplo: derramou o leite no chão? Tem que limpar (e enquanto a criança é muito novinha, o pai ou a mãe ajudam a limpar). Bateu no amigo? Vai lá pedir desculpas. Quebrou alguma coisa? Ajuda a consertar. Não fez a tarefa de casa no momento combinado? Vai deixar de assistir TV para fazê-la. Isso é arcar com as consequências, e não castigo.

E quando a criança ainda é muito pequena? Já notou que você acaba dizendo dez, quinze vezes a mesma coisa e ela não aprende? Bem, você precisa entender o que acontece na cabecinha dela antes de colocar no banquinho “para pensar”. As crianças pequenas fazem as coisas erradas porque elas não têm logicidade, não entendem de forma clara a relação causa e efeito. Agem por instinto e são egocêntricas, ou seja, acham que o tudo funciona para elas e por causa delas. Também fazem o errado apenas por curiosidade. Estão experimentando o mundo, faz parte. Mostrar o erro nesse momento não vai garantir o aprendizado na hora. É preciso dizer muitas vezes sim. “Já falei mil vezes para não colocar o dedo na tomada! Vai ficar de castigo!”, não é assim? Acontece que elas não sabem o risco de um dedo na tomada, por mais que você já tenha falado mil vezes. Diga mais uma vez e a afaste do perigo, simplesmente.

Isso é o que você deve fazer enquanto seu filho ainda é um bebê. As estratégias para ensinar a criança variam por idade. Até os dois anos de idade, não adianta nada colocar a criança “para pensar”, por mais que isso venha com uma explicação dos pais sobre o motivo do castigo. A criança ainda não consegue perceber que sua atitude não foi adequada. E mesmo quando ela é maiorzinha, também não adianta deixar “pensando”.

Muitos pais dizem que o tempo do castigo é de acordo com a idade, ou seja, se tem três anos, são três minutos, sozinha, pensando. Psicólogos dizem que crianças com 3, 4 anos se assustam muito mais do que “pensam” quando ficam sozinhas. Nesse caso, é mais eficiente tirar da criança algo de que ela goste, como um brinquedo, um desenho animado, por exemplo. A estratégia ajudará a frear a ação para que a criança preste atenção a seus atos errados. Nessa hora, converse com ela. Entenda o que a levou a fazer aquilo e explique porque está errado. E para as crianças pequenas, a explicação não deve ser longa. Os pequenos perdem rápido o fio da meada, porque seu cérebro ainda está em formação e eles não acompanham conversas muito longas.

A partir dos 7 ou 8 anos, é mais fácil para a criança perceber que pode perder coisas legais por ter agido de forma errada. E aí ficará mais fácil lidar com as consequências, deixando o castigo de lado. Mas a explicação tem que existir. Sempre. Lembre-se que o objetivo maior é o aprendizado, e não o fato de deixar o filho sem se divertir.

E punir com palmadinhas, vale? Bem, para os pais que costumam querer mostrar autoritarismo com tapinhas na mão, é bom saber que isso só provoca raiva e medo. Resolve? Resolve para os pais, porque o filho passa a ter medo da agressão e certamente não repetirá o erro (e só naquele momento). Mas a criança não compreendeu as razões da punição. Ensinar o filho a ter medo de cometer certas atitudes é ensinar a usar o medo como arma, e será essa a forma que irá usar com os outros, posteriormente. Você ensina ao seu filho, assim, que é com a força física que se resolvem as coisas, e não com a conversa. Mas só uma palmadinha? Sim, mesmo só com uma palmadinha. Não é a dor, é o ato, entende?

E não menos importante: a punição ou a chamada de atenção não deve ser na frente das outras pessoas. Você não precisa querer mostrar autoridade aos seus amigos. Precisa se lembrar que, antes de tudo, não deve constranger seu filho na frente dos outros. Chame-o no canto e converse. Se está numa festa, vale até mandar ficar um pouco sentado, sem a brincadeira, por ter batido no amiguinho. Mas a intenção é conversar para fazê-lo entender o erro. E, em seguida, a consequência: pedir desculpas ao amigo.

Ah, e não diga o que não pode cumprir. Se disser: “Vamos embora da festa se fizer isso novamente!” e ele fizer novamente, vá embora mesmo. Os pais que costumam blefar com os filhos, perdem a credibilidade, as crianças percebem com pouco tempo. E aí a birra vai ser maior e o trabalho para corrigir, nem se fala.

A verdade é que os momentos de malcriação da criança são fortes chances de aprendizado. E se você simplesmente coloca seu filho de castigo porque ele derramou a comida no chão, você perde uma grande oportunidade de ensinar seu filho a amadurecer. Perde a chance de trabalhar o cérebro da criança. Entenda que seu filho não tem a sua idade e nem tudo o que é lógico para você será para ele. Exija menos nesse sentido. E, não esqueça: o castigo só resolve um problema pontual: o seu. Não o dele.

1 comentário

  • Flavia Carvalho

    Isso mesmo ! Como educadora , na escola funcionamos da mesma maneira. A criança precisa saber que tudo tem consequências. Tudo bem, consequências boas, algo saiu errado, consequências não muito boas. É assim as crianças aprendem a ter responsabilidades pelos próprios atos. Obrigada pela colaboração na difícil tarefa de ensinar !

Faça um Comentário

    Topo