segunda-feira 04 de abril de 2016

Você está mesmo com seu filho?

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Eu me lembro do receio que eu tinha sobre o tempo que passava com meu filhote, quando ele era um bebê. Assim que terminou minha licença maternidade, meu filho – aos cinco meses – ficou num berçário e a mamãe que passava 24 horas por dia colada nele passou a ficar só um terço do dia lambendo a cria. Foi um drama pra mim! Mas com o tempo entendi o que é estar com o filho de verdade e o que é estar ao lado dele apenas fisicamente.

Uma coisa a gente precisa entender: ter filho hoje em dia não é como antigamente, no tempo de nossos avós, que a mãe não trabalhava fora de casa e se dedicava quase que exclusivamente aos filhos. A psicóloga Macira Sotero, especializada em terapia familiar, lembra que a pós-modernidade trouxe, junto com as tecnologias de informação e do conhecimento, várias atividades que não faziam parte do nosso repertório cotidiano. “Precisamos aprender línguas, praticar esportes, fazer ginástica, cuidar da nossa imagem estética, nos divertir, manter um relacionamento social com parentes e amigos e, claro, trabalhar”, diz.

Aí vem a questão: quando, então, cuidar dos filhos, dar atenção, educar, ou seja, ser mãe (e pai)? Bem, isso eu aprendi quando meu garoto era um bebezinho. Uma psicóloga havia me dito: “O mais importante não é quantidade de tempo que você passa com seus filhos, mas a qualidade desse tempo”. Pronto, foi uma mão na roda! Ter entendido isso me tirou um peso enorme das costas.

E é bem assim que Macira pensa. “Inicialmente precisamos significar o vocábulo quantidade. Estar junto com a criança não é a mesma coisa que estar presente. Podemos estar juntos o dia todo e ficarmos ausentes fazendo outras atividades que tiram a nossa atenção do vínculo afetivo como, por exemplo, ficar nas redes sociais, na TV ou no computador. Estar atenta às necessidades físicas da criança no dia a dia, como banho, troca de fraldas e mamadas, não significa estar atenta às necessidade emocionais, onde realmente a conexão materna é muito significativa. O amor é uma construção contínua que se fortalece diariamente com responsabilidade e comprometimento”, completa Macira.

Pegamos no seu ponto fraco, mamãe? Você é daquelas que se cobra passar mais tempo com o filho e, quando está com ele, não larga o celular, as redes sociais, as conversas em aplicativo de grupos? Huuuuum, então essa conversa é importante. De acordo com a psicóloga, para dedicar tempo aos filhos, não tem jeito, tem que deixar outras coisas de lado. “É preciso aprender a priorizar o tempo juntos e qualificar esse tempo com sensibilidade às necessidades físicas e emocionais da criança. Portanto, o essencial não depende só das horas passadas juntos, mas da segurança e confiança estabelecida nesse laço materno, na construção desse vínculo estruturador que lastreará todas as futuras relações dessa criança. No entanto, como em qualquer tarefa, para alcançar qualidade é preciso administrar o tempo, assumir compromisso, e ter dedicação”, explica Macira Sotero.

Em seu livro “A sociedade dos filhos órfãos”, o terapeuta e pesquisador dos vínculos humanos Sergio Sinay faz uma boa crítica a esse modelo social em que vivemos. Para ele, não basta colocar um filho no mundo. Na sociedade atual, em que pais e mães vivem excessivamente atribulados, crianças e adolescentes precisam de orientação, referências, limites e valores que deem sentido às suas vidas.

Aí, quando a gente fala em ser mãe ou pai, a gente está falando em fazer escolhas. Isso mesmo: escolhas! Se você tem coisa demais no seu dia a dia, vai ter que aprender a reorganizar essa rotina para inserir o item “filho” nela. “Se há demandas de inúmeros afazeres no modus vivendi atual a questão crucial é questionar se todas essas atividades são necessárias. É saber diferenciar o essencial do supérfluo. O urgente do fundamental. É se perguntar: Podemos trabalhar menos enquanto nossos filhos são pequenos? Podemos revezar enquanto pais o tempo com a criança? Por que tem que ser sempre a mãe a que duplica suas tarefas? Passamos o tempo que temos juntos, com atividades lúdicas e prazerosas?”, lembra a psicóloga.

Nada mal o questionamento, heim? Afinal, educar é uma construção conjunta de pais que querem o melhor para os seus filhos. E não estamos falando em melhor em relação a “bens materiais”, mas em dar todas as condições emocionais para ele lidar, lá na frente, com os embates da vida.

Então, pare de se culpar por não estar muito tempo com seu filho e comece a perceber a qualidade desse tempo. Quando você está com ele você realente está com ele? Deixa esse celular de lado e vai curtir esse filhote!

5 Comentários

  • Gabriela

    Sempre lia seus textos e mesmo sem ser mãe, por ser estudante de Nutrição, gosto de ler os que são relacionados a isso. Agora que percebi que esse nenem lindo é Dudu! Sou estagiária do colégio dele e tenho acompanhado o almoço dele todos os dias! Kkkkk lindo demais! Beijo, adoro seus textos! :*

    • Sarah Eleutério

      Oh, Gabriela… que lindo!!! Obrigada, flor!! :)))

  • Roberta Rezende

    Show, show, show…!!! Essencial este texto… Muito importante e esclarecedor!!!
    Adorei!
    Muito Obrigada!

  • Erica Porto

    Sarah, me identifiquei muito com o seu texto e me bateu um remorso, pois, abri mão do meu trabalho dois meses após o fim da licença-maternidade para me dedicar aos cuidados do meu filho, no entanto, somente agora ao ler o seu texto, pude perceber o quanto sou ausente na vida dele. Estou sempre atarefada, priorizando a limpeza da casa, a lavagem das roupas e, quando tenho um tempinho, corro para a frente do computador para acessar as redes sociais. Me sinto muito culpada por saber que apesar de estar junto, não estou presente. O pior é que reclamo quando ele quer atenção e não me deixa fazer as coisas.
    Preciso mudar esta realidade e me tornar presente na vida do meu filho.

  • fabiana lopes

    Estou amando ler seus textos.
    Parabéns, cada um melhor que o outro.
    Bjs!!!!

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