terça-feira 13 de agosto de 2013

Por trás do choro

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É no primeiro mês da nova vida que chega à sua casa, e com todos os sofrimentos da dor e do cansaço dessa fase, que nasce a bela relação entre mãe e filho. E não digo relação no sentido de troca de olhares, mãozinha no rosto da mãe enquanto mama ou do carinho que ambos sentem. Mas falo de conhecer um ao outro.

Tudo é uma questão de adaptação. Nos primeiríssimos dias de vida de meu filho, ele veio com uma de chorar compulsivamente. Foi uma madrugada que se repetiu na manhã seguinte. Parecia que o mundo estava caindo sobre sua cabeça. Chorava que ele demorava para puxar o ar novamente (as mães entram em pânico quando isso acontece). Fomos parar na emergência, claro. É cólica, dor, gases, tem que cortar lactose. Tentamos e tentaríamos de tudo para não vê-lo mais daquela maneira. Mas que nada. Era adaptação.

Ontem fomos à consulta com a pediatra. Ela disse que aconselhou a emergência naquele dia porque não estava ali vendo meu filho e preferiu afastar qualquer possibilidade de um problema maior, até cirúrgico. Mas cólica ela também achava que não era. É muito cedo para apresentar tal quadro. Ainda assim, sugeriu cortar o leite para verificarmos se não estaria influenciando. Mas já me mandou voltar à minha alimentação aos poucos.

Eu expliquei que essa semana, mesmo depois de alguns dias sem consumir leite e derivados – pense num sacrifício – percebi que meu filho repetiu por duas ou três vezes o mesmo choro ensurdecedor. Conseguimos acalmá-lo segurando os bracinhos e fazendo um chiado alto em seu ouvido (prometo falar sobre isso em outro texto. É quase milagroso, e tem explicação). Ou seja, se o choro acabou com um mero chamego, não era dor que ele sentia. Cólica não passa com uma conversinha ao pé do ouvido. É aí que você percebe que está começando a entender seu filho. E ele, a te conhecer. Adaptação. Não há outra forma de definir esse início de relação entre vocês dois.

Uma semana com Eduardinho e somente agora eu entendo o que ele não gosta na hora de trocar a fralda, qual a posição que ele prefere no banho e, principalmente, como dizer “Estou aqui. É mamãe. Vai ficar tudo bem”, mas dizer sem palavras e conseguir fazê-lo parar de chorar. Da mesma maneira, meu filho está começando a se adaptar ao novo ambiente, bem diferente do quentinho, seguro e silencioso útero, onde passou nove meses. Ele começa a entender que depois do xixi alguém vai tirar a roupinha dele e passar um creme branco chato e pingar um líquido gelado em seu umbigo.

Aos poucos, o bebê começa a entender como funcionam as coisas do lado de cá. E você, a entender como funciona a cabecinha dele. Essa relação é linda. Lembre-se disso quando tiver seu bebê novinho berrando em seu ouvido. Lembre-se disso quando estiver cansada, operada, com tudo doendo, sem dormir à noite e com vontade de chorar dizendo “que invenção a minha de ter um filho!” (Acredite, isso passa pela sua cabeça, sim. E não se culpe. Passa pela cabeça de toda mãe. É porque elas não revelam isso). Mas quando estiver esgotada e não souber mais como fazer seu filho parar de chorar, lembre que vocês estão se conhecendo, que ele ainda não sabe dizer “mamãe, tem um arrotinho preso aqui dentro que não consigo soltar e está me incomodando” – ele vai é berrar no seu ouvido. Lembre-se da relação linda que vocês estão começando a construir. Aí você vai entender que aquela cólica, de repente, às vezes era só cansaço.

Preste atenção no seu filhote. É maravilhoso você saber a carinha que ele faz quando quer soltar um pum ou qual a posição que ele gosta de dormir. É maravilhoso entender que depois de mamar ele gosta de um tempinho para dar uma espreguiçada, e não que alguém logo o sacuda para trás para ele arrotar. Respeite o tempo dele. Converse com ele dizendo porque está trocando a fralda ao invés de invadir sua intimidade sem dar explicações. Se seu bebê recém-nascido demora muito para mamar e fica parando como quem vai dormir, isso não é preguiça. É que, segundo os pediatras, cansa mesmo. Ele é muito novinho e o esforço que faz para mamar é grande. Por mais que seu peito esteja doloroso, respeite o tempinho do seu filhote.

Depois de uma semana, eu começo a perceber por que motivo meu filho chora em determinadas situações e, principalmente, começo a saber como acalmá-lo. A perceber o jeitinho com o qual ele gosta de mamar e que sempre que termina, gosta de jogar os braços para trás, espreguiçando-se, e de ficar alguns minutos quietinho. Nesse momento, sempre abre um sorriso, ainda de olhinho fechado. E daí eu já posso colocá-lo no outro peito para continuar comendo.

Não deixe de se dar a oportunidade de conhecer seu filho. Não permita que seu cansaço e seu esgotamento a impeçam de enxergar o que ele está querendo dizer. Essa relação começa desde que ele sai de dentro de você. E é a relação mais bonita e pura que pode existir.

Aproveite isso.

4 Comentários

  • Realmente emocionante… E esse sorriso aí no final não tem preço!!

  • Apesar do sacrifício, do mês catastrófico, das dores, das noites em claro, do choro, do desespero… o que fica depois da leitura desse texto é a vontade de ser mãe. E a certeza de que um sorriso como o de Eduardinho faz tudo isso valer a pena! Parabéns, prima!

    • É isso mesmo, Nina. Na real? Cansa, sim. Há momentos angustiantes, mas o sentimento que prevalece é esse amor infinito por quem você tem o prazer de chamar de "meu filho".

  • Que safadinho esse Eduardinho!! Lindo e sorridente. Beijo! (Bruna Siqueira)

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